Semana do Clima de Mumbai impulsiona ação coordenada do Sul Global rumo à COP31
Inovações e soluções voltadas ao Sul Global fortalecem a Agenda de Ação, renovada em Belém, com destaque para um programa bilionário de investimento climático

Durante a Semana do Clima de Mumbai, líderes fizeram mais do que discutir o aumento das temperaturas e o agravamento das enchentes. Anunciaram programas robustos de investimento, mobilizaram dezenas de cidades no enfrentamento do calor extremo e apresentaram mais de mil projetos climáticos prontos para receber financiamento.
A Semana do Clima de Mumbai 2026 é a primeira plataforma indiana dedicada exclusivamente à ação climática com foco em implementação, mobilização de recursos, planejamento de resiliência e engajamento da sociedade. A iniciativa é liderada pela Project Mumbai em parceria com o Governo de Maharashtra, o estado mais rico da Índia.
Na COP 30, os países adotaram uma decisão histórica para formalizar a transição do regime climático de sua fase de negociações, que se estendeu por três décadas, para uma nova etapa centrada na implementação. Sob uma visão renovada para os próximos cinco anos, a chamada Agenda de Ação passou a funcionar como um mecanismo de entrega, voltado a transformar acordos climáticos em resultados concretos. Trata-se de um espaço específico dentro do processo da COP que reúne mais de 480 coalizões de países, governos subnacionais, empresas, investidores e organizações da sociedade civil dispostos a avançar com maior rapidez em seis eixos temáticos.
As Semanas do Clima vêm ganhando força em todas as regiões do mundo, com pautas profundamente conectadas às demandas da população. Elas ajudam a articular uma mobilização contínua ao longo dos 365 dias do ano e a levar às COPs resultados que dialogam com a vida das pessoas e com as diferentes realidades nacionais. Mumbai foi a primeira de 2026, e mostrou exatamente isso.
Abrindo a série de anúncios da semana passada, autoridades do estado de Maharashtra, onde fica a cidade de Mumbai, lançaram o Programa de Facilitação de Investimentos Climáticos, com o objetivo de atrair bilhões de dólares em capital privado. A iniciativa, apoiada pela The Climate Group por meio da Under2 Coalition e pela AVPN, foi estruturada para direcionar recursos a energia limpa, infraestrutura resiliente e crescimento de baixo carbono, alinhando-se à meta de Maharashtra de construir uma economia de US$ 1 trilhão até 2047 e ao Eixo 4 da Agenda de Ação: “Construindo resiliência para cidades, infraestrutura e água”.
Em paralelo, autoridades de Maharashtra e o World Resources Institute India anunciaram uma carteira com mais de mil projetos climáticos prontos para captação de recursos em 44 cidades. As iniciativas abrangem transporte público, energia limpa, sistemas de abastecimento de água e gestão de resíduos, e foram estruturadas para atrair investimento privado, não apenas recursos públicos ou doações governamentais.
Igualmente relevante: 30 cidades de Maharashtra aderiram à coalizão global Beat the Heat, apoiada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). A iniciativa apoia os municípios na preparação para verões mais longos e intensos, por meio do aprimoramento de sistemas de resfriamento, do planejamento urbano e de ferramentas de alerta precoce. A expansão da coalizão evidencia um reconhecimento crescente de que o aumento das temperaturas, cada vez mais letal nos corredores urbanos do Sul da Ásia, já não pode ser tratado como um incômodo sazonal.
Avançando no Eixo 3: “Transformando a agricultura e os sistemas alimentares” a Agenda de Ação para Paisagens Regenerativas (AARL, na sigla em inglês), lançada pela presidência da COP28 em parceria com o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD, na sigla em inglês) e a Boston Consulting Group (BCG), reúne mais de 40 empresas do agronegócio, instituições financeiras, parceiros de campo e atores governamentais nacionais para catalisar investimentos. A iniciativa está mobilizando US$ 9 bilhões em investimentos comprometidos até 2030, com planos de envolver 12 milhões de agricultores e expandir práticas regenerativas em mais de 210 milhões de hectares, distribuídos por 110 países. Em Mumbai, foi lançado o segundo Acelerador Nacional de Paisagens, com foco na Índia.
A Semana do Clima de Mumbai refletiu o espírito da Agenda de Ação: centrada nas pessoas, orientada para a implementação e baseada na cooperação.
A crise climática da Índia e sua liderança em números

A urgência por trás desses anúncios foi reforçada por recentes choques climáticos. A Ásia está aquecendo a um ritmo mais que duas vezes superior à média global, com ondas de calor, ciclones e enchentes impondo um custo humano e econômico devastador.
Um estudo publicado na revista Nature, em novembro passado, apontou que as mortes relacionadas às chuvas durante a temporada de monções em Mumbai são quase dez vezes superiores aos números oficiais, sendo que moradores de favelas sao mais de 80% das vítimas. Analistas estimam que, se não for contido, o aumento do calor nas áreas urbanas, por si só, pode reduzir o PIB da Índia em até 2,5%.
Para governos e empresas, a semana passada representou não apenas uma oportunidade de reconhecer esses desafios, mas de começar a financiar e implementar soluções, inclusive por meio de uma coalizão empresarial apoiada pelo WBCSD, voltada ao financiamento de projetos de adaptação.
Como a Agenda de Ação conecta metas globais a impactos locais
Os resultados alcançados em Mumbai estão alinhados a mudanças mais amplas na ação climática global. Na COP30, realizada em Belém, a Agenda de Ação foi redesenhada em torno de seis áreas prioritárias, com base na primeira avaliação global já realizada sobre o grau de cumprimento das promessas climáticas dos países.
Para o Sul da Ásia, essas prioridades dialogam diretamente com os maiores desafios da região. Fortalecer a resiliência de cidades, infraestrutura e sistemas hídricos responde à crise enfrentada por Mumbai, Dhaka, Jakarta e Manila, megacidades costeiras onde infraestruturas envelhecidas se deparam com monções cada vez mais intensas e a elevação do nível do mar.
A transformação da agricultura e dos sistemas alimentares é crucial para os meios de subsistência de centenas de milhões de pequenos produtores na planície Indo-Gangética e no Mekong Delta, cujas colheitas estão cada vez mais sujeitas à imprevisibilidade do clima. A proteção de florestas, oceanos e da biodiversidade permanece inseparável do destino dos manguezais e dos ecossistemas de corais, que defendem as zonas costeiras e sustentam a pesca e as economias ligadas ao turismo.
O impulso da Índia na transição de energia, indústria e transporte também vem crescendo. O governador-chefe de Maharashtra, Devendra Fadnavis, destacou que a Índia já ultrapassou 260 GW de capacidade instalada de energia renovável e adicionou recentemente 55 GW em um único ano, 75% provenientes de fontes renováveis. “Enxergamos a ação climática muito além do cumprimento de obrigações, vemos nela uma estratégia de competitividade. Estados que se anteciparem atrairão capital, talentos e inovação. Maharashtra pretende liderar esse movimento”, afirmou Fadnavis.
Os resultados da Mumbai Climate Week 2026 oferecem indícios iniciais de que esse arcabouço está funcionando como previsto, organizando prioridades climáticas globais para destravar financiamento, parcerias e projetos nos níveis estadual e municipal.
“A ação climática precisa melhorar as condições de vida, assim como as políticas públicas devem se traduzir em resultados concretos no território”, afirmou Samed Ağırbaş, Campeão de Alto Nível para a Ação Climática da COP31.
“No Sul e no Sudeste Asiático, isso significa ajudar agricultores a proteger suas colheitas, tornar as cidades mais verdes, promover uma indústria limpa, reduzir resíduos e garantir que as comunidades tenham acesso a financiamento climático”, continuou. “A Agenda de Ação é o instrumento que conecta essas soluções às comunidades que mais precisam delas”.
Na sessão de abertura, o CEO e cofundador da Project Mumbai e fundador da Semana do Clima de Mumbai, Shishir Joshi, afirmou: “Para Mumbai, isso faz parte do cotidiano. Cidade de imensa diversidade e dinamismo, Mumbai sempre demonstrou resiliência diante dos desafios. Das enchentes de monção às crises de saúde pública e aos atentados terroristas, sua população incorpora o espírito de adaptação, inovação, força coletiva e, acima de tudo, solidariedade. Como capital financeira da Índia e verdadeiro caldeirão cultural, além de capital da solidariedade do país, Mumbai é um laboratório vivo de soluções climáticas e está singularmente posicionada para liderar a agenda de resiliência climática, servindo de exemplo para cidades de todo o Sul Global”.
