Semana do Clima

Porto Alegre realiza sua 1ª Semana de Ação Climática para transformar trauma em mobilização e ação climática

Evento quer consolidar diálogo e colaboração para acelerar a adaptação à mudança do clima, justiça social e implementação de soluções após as enchentes históricas de 2024

Enchente em Eldorado do Sul (RS), maio de 2024. Crédito: Gustavo Mansur/ Palácio Piratini
Enchente em Eldorado do Sul (RS), maio de 2024. Crédito: Gustavo Mansur/ Palácio Piratini

Dois anos depois das enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul, Porto Alegre se prepara para transformar memória, indignação e solidariedade em mobilização coletiva. Entre os dias 20 e 26 de julho, acontece a 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre, com uma ampla programação pública voltada à agenda de ação climática e à implementação de soluções de adaptação para um futuro resiliente e justo.

Liderada por Denise Dora, cofundadora da Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, e Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil — ambas Enviadas Especiais da COP30 —, a 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre está sendo organizada junto com mais de 30 organizações da sociedade civil local, além de contar com o apoio de instituições nacionais e internacionais envolvidas na realização da Rio Climate Action Week e da London Climate Action Week. A iniciativa nasce da experiência concreta de quem acompanhou de perto os impactos humanos, sociais e psicológicos da maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul.

Em maio de 2024, as enchentes atingiram 2,4 milhões de pessoas em 478 municípios gaúchos, segundo a Defesa Civil Estadual. Foram 185 mortes confirmadas, 806 pessoas feridas, 23 desaparecidas e um pico de quase 582 mil desalojadas. Ainda hoje, dezenas de famílias estão em abrigos temporários.

“A população do Rio Grande do Sul vive desde 2024 um estado permanente de alerta, insegurança e trauma climático. O clima mudou significativamente e nós precisamos nos organizar para prevenir, proteger e adaptar nossas cidades, comunidades, políticas públicas e nossas formas de convivência a essa nova realidade”, afirma Denise Dora. “Só vamos superar essa confusão social se conseguirmos engajar governos, empresas, universidades, movimentos sociais, juventudes e toda a sociedade em torno da ação climática. Não há mais espaço para negacionismo e inação. O momento de unir forças e agir é agora.”

A preocupação é reforçada pelas previsões de um novo episódio severo de El Niño no segundo semestre deste ano, enquanto o estado ainda tenta se recuperar dos impactos da tragédia de 2024.

Com participação gratuita, a Semana do Clima ocupará diferentes espaços da cidade com debates, atividades culturais e esportivas, encontros comunitários e ações de mobilização. A programação principal acontecerá no Multipalco do Theatro São Pedro, com discussões sobre resiliência urbana, transição energética, agricultura, segurança alimentar, cooperativismo e cadeias de valor sustentáveis. Também estão previstas atividades na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma Feira Solidária e a Maratona pelo Clima — percurso simbólico pelos principais locais atingidos pelas enchentes em Porto Alegre. 

Lançamento da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre com a participação do presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago - Foto: Felipe Werneck/COP30
Lançamento da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre com a participação do presidente da COP30, o embaixador André Corrêa do Lago - Foto: Felipe Werneck/COP30

A programação foi estruturada com base nos seis eixos da Agenda de Ação Climática Global: (1) Transição nos setores de energia, indústria e transporte; (2) Gestão sustentável de florestas, oceanos e biodiversidade; (3) Transformação da agricultura e sistemas alimentares; (4) Construção de resiliência em cidades, infraestrutura e água; (5) Promoção do desenvolvimento humano e social; e (6) Catalisadores e aceleradores, incluindo financiamento, tecnologia e capacitação.

A proposta é promover encontros entre ciência, cultura, políticas públicas e participação social; reavivar a memória e a empatia com os grupos mais afetados; fortalecer os debates sobre direitos humanos, igualdade de gênero e justiça climática; além de consolidar a Semana do Clima no calendário cultural e político da região.

A programação também dialogará diretamente com as discussões internacionais sobre clima e implementação de acordos multilaterais. O lançamento da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre conta com a presença do presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, referência internacional na defesa do multilateralismo como resposta à emergência climática.

Também participam da programação a CEO da COP30, Ana Toni, e a negociadora-chefe da COP30 e diretora do Departamento de Clima do Ministério das Relações Exteriores, embaixadora Liliam Chagas, reforçando a conexão entre as discussões globais e os desafios vividos cotidianamente pela população do Rio Grande do Sul.

Os debates irão abordar avanços recentes das negociações climáticas internacionais, incluindo a ampliação do financiamento para adaptação à mudança do clima, o fortalecimento da agenda de transição justa, os novos mecanismos de cooperação internacional e a implementação do Plano Clima do Brasil, lançado no último mês de março.

A agenda de gênero e direitos humanos também terá papel central. A COP30 aprovou em Belém um novo Plano de Ação de Gênero com horizonte de nove anos, considerado um dos mais ambiciosos já negociados no âmbito climático internacional, incluindo medidas de produção de conhecimento sobre os impactos da mudança do clima na saúde, na educação e na proteção de mulheres e meninas contra a violência. O plano também aborda o trabalho de cuidado; propõe o fortalecimento da proteção de mulheres defensoras do meio ambiente; e a ampliação do acesso à educação, tecnologia e trabalho digno.

A Semana de Ação Climática pretende destacar soluções que já emergem dos territórios gaúchos. Entre elas está a maior produção de arroz orgânico da América Latina, liderada por assentamentos da reforma agrária na Região Metropolitana de Porto Alegre. As lavouras ocupam aproximadamente 2,8 mil hectares e envolvem 290 famílias, distribuídas em 10 assentamentos de sete municípios gaúchos: Nova Santa Rita, Viamão, Eldorado do Sul, São Jerônimo, Charqueadas, Tapes e São Gabriel. A produção é voltada principalmente ao abastecimento interno, cooperativas e merenda escolar, tornando-se referência de agricultura sustentável, economia solidária e segurança alimentar.

“Não queremos apenas discutir o futuro. Queremos criar espaços concretos de colaboração, cuidado, escuta e implementação. A crise climática já faz parte do cotidiano das pessoas. Precisamos responder a ela com coragem, solidariedade e ação coletiva”, resume Denise Dora.

A programação completa da 1ª Semana de Ação Climática de Porto Alegre será divulgada nas próximas semanas pelo link: semanadoclima.poa.br