8 de março

Plano de Ação de Gênero de Belém marca agenda do 8 de março, Dia Internacional da Mulher

Aprovado na COP30, realizada no Brasil, o Plano de Ação integra igualdade de gênero às políticas climáticas globais e destaca o papel das mulheres no combate à mudança do clima.

Combinação de fotos mostra um grupo multicultural de mulheres na COP30, em Belém (PA) - Foto: Hermes Caruzo/COP30
Combinação de fotos mostra um grupo multicultural de mulheres na COP30, em Belém (PA) - Foto: Hermes Caruzo/COP30

Texto: Leandro Molina / COP30

A adoção do Plano de Ação de Gênero de Belém marcou um dos principais resultados da COP30, realizada em novembro de 2025 no Brasil, na capital paraense. O documento estabelece um conjunto de ações para fortalecer a participação das mulheres, ampliar dados e evidências, mobilizar financiamento e impulsionar tecnologias que integrem a igualdade de gênero às políticas climáticas e orientem a atuação dos países nos próximos anos.

O plano reconhece que a crise climática tem impactos sociais diferenciados e que mulheres e meninas frequentemente estão entre as mais atingidas por eventos extremos, insegurança alimentar, deslocamentos forçados e aumento da carga de trabalho doméstico e de cuidado. Ao mesmo tempo, destaca o papel fundamental das mulheres na adaptação climática, na gestão de recursos naturais e na construção de soluções sustentáveis para as comunidades.

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, tem origem nas lutas históricas por direitos, participação política e igualdade de oportunidades. Ao relacionar esse marco ao Plano de Ação de Gênero de Belém, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) conclama governos, entidades das Nações Unidas, sociedade civil e outros atores relevantes a atuarem de forma conjunta para fortalecer — do nível global ao local — as políticas e ações climáticas sensíveis ao gênero.

Em muitas regiões do mundo, eventos extremos, como secas, enchentes e perda de biodiversidade, podem afetar de forma desproporcional atividades nas quais as mulheres têm papel central, como a produção de alimentos, o cuidado com a família e a gestão de recursos naturais nas comunidades. Por isso, organizações internacionais e governos vêm defendendo que políticas climáticas precisam considerar essas realidades.

No Dia Internacional da Mulher, a embaixadora Liliam Chagas, diretora do Departamento de Clima do Ministério de Relações Exteriores (MRE), destaca que a crise do clima afeta mais mulheres e meninas, sobretudo em países vulneráveis - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
No Dia Internacional da Mulher, a embaixadora Liliam Chagas, diretora do Departamento de Clima do Ministério de Relações Exteriores (MRE), destaca que a crise do clima afeta mais mulheres e meninas, sobretudo em países vulneráveis - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Conclamação à comunidade internacional

A embaixadora Liliam Chagas, diretora do Departamento de Clima do Ministério de Relações Exteriores (MRE), neste Dia Internacional da Mulher, destaca que a mudança do clima tem impactos desproporcionais sobre as mulheres.

“O aumento da temperatura global causado pela mudança do clima tem um impacto mais duro na vida das mulheres e meninas, especialmente das que vivem em países vulneráveis. Isso agrava desigualdades e afeta diretamente áreas como saúde, educação e segurança”, afirma a embaixadora.

Liliam ressalta que a comunidade internacional tem buscado respostas para esse cenário por meio de acordos climáticos. “Em Belém do Pará, no Brasil, um dos resultados mais importantes alcançados na COP30 foi a aprovação do Plano de Ação de Gênero de Belém”, explica.

De acordo com a diplomata, dentre as medidas previstas no plano está o incentivo para que governos produzam dados sobre os efeitos das mudanças climáticas na vida de mulheres e meninas, bem como sua proteção contra a violência. “Esse tipo de informação permitirá políticas mais eficientes”, salienta.

A embaixadora também afirma que o Brasil pretende avançar na implementação dessas iniciativas e reforça o compromisso do país com políticas climáticas sensíveis à questão de gênero.

“O Brasil está decidido a implementar esses compromissos e garantir que políticas climáticas permaneçam responsivas ao gênero. Nós conclamamos a comunidade internacional a proteger o clima e o direito fundamental das mulheres e meninas a uma vida saudável”, conclui.

O plano aprovado na COP30 estabelece metas e ações concretas para os países. O documento organiza suas diretrizes em diferentes áreas de atuação, como capacitação, produção de conhecimento, participação equilibrada de gênero nas negociações climáticas, implementação de políticas públicas sensíveis às desigualdades e mecanismos de monitoramento e prestação de contas.

Entre as medidas previstas estão a ampliação da presença feminina nas delegações nacionais e nos espaços de decisão sobre clima, o apoio a iniciativas lideradas por mulheres, a produção de dados que evidenciem os impactos climáticos diferenciados e a promoção de programas de formação para negociadoras e especialistas na área.

O plano também reforça a necessidade de garantir financiamento e apoio técnico para ações climáticas que considerem as desigualdades estruturais existentes nas sociedades. Nesse sentido, a proposta busca ampliar oportunidades para mulheres, especialmente aquelas pertencentes a grupos historicamente marginalizados, como indígenas, comunidades rurais, afrodescendentes e defensoras ambientais.

Justiça climática, inclusão e participação feminina nas decisões globais

A Jovem Campeã do Clima da Presidência da COP30, Marcele Oliveira, conhece bem a realidade e as vozes da juventude, principalmente da juventude periférica. Ativista climática crescida no bairro Realengo, no Rio de Janeiro, ela ressalta que a aprovação do Plano de Ação de Gênero durante a COP30 foi acompanhada por mobilizações da sociedade civil e de jovens ativistas que discutiram os impactos da crise do clima sobre mulheres e meninas. Entre as iniciativas realizadas em paralelo às negociações oficiais, destacou-se a Plenária das Mulheres sobre Gênero e Clima, que reuniu jovens de diferentes países para debater justiça climática, inclusão e participação feminina nas decisões globais.

A atividade foi organizada em parceria com o Ministério das Mulheres e a Secretaria Nacional de Juventude, na chamada Cidade das Juventudes, espaço dedicado à participação de jovens durante a Conferência do Clima. A plenária também contou com a presença de integrantes da comunidade da Vila da Barca — às margens da Baía do Guajará, no coração de Belém, e recebeu cerca de 200 jovens de 46 países no espaço cultural Curro Velho.

Mulheres de 46 países reunidas em Belém reforçaram um recado: justiça climática também é igualdade de gênero. “A luta do 8 de março segue viva diante da crise do clima”, diz Marcele Oliveira, Jovem Campeã do Clima da Presidência da COP30 - Foto de Aline Massuca/COP30
Mulheres de 46 países reunidas em Belém reforçaram um recado: justiça climática também é igualdade de gênero. “A luta do 8 de março segue viva diante da crise do clima”, diz Marcele Oliveira, Jovem Campeã do Clima da Presidência da COP30 - Foto de Aline Massuca/COP30

Marcele Oliveira destaca a diversidade do encontro e o papel da juventude na construção de respostas para a crise do clima. Segundo ela, avanços importantes foram registrados nas negociações internacionais.

“Celebramos o reconhecimento de dados desagregados por raça, gênero e território e com a inclusão da palavra "afrodescendentes", mas entendemos que ainda há muito que precisa ser feito”, afirma.

A Jovem Campeã do Clima também relacionou o debate climático às lutas históricas das mulheres por direitos e igualdade. “A luta das mulheres por melhores condições de trabalho, igualdade salarial e direito ao voto, que deu origem ao 8 de março, segue viva em nós, que, ao redor do mundo, estamos construindo soluções e resiliência que intensificam o pedido por adaptação climática e transição justa diante do agravamento dos impactos das mudanças do clima”, pontua. 

Dados recentes reforçam a urgência dessa agenda. De acordo com relatório da ONU Mulheres (2024), até 2050 mais de 158 milhões de mulheres e meninas poderão ser empurradas para a pobreza em razão da mudança do clima, enquanto cerca de 236 milhões enfrentarão insegurança alimentar.

Diante desse cenário, Marcele Oliveira defende que a mobilização precisa ser imediata e contínua. “Portanto, a hora de agir continua sendo hoje, agora e pra já”, conclama.

Com vigência prevista para quase uma década, o Plano de Ação de Gênero de Belém estabelece um cronograma de implementação com diversas atividades e resultados esperados, além de mecanismos de acompanhamento internacional e uma revisão intermediária ao longo do período. O plano também conecta a agenda climática a temas como segurança alimentar, saúde, migração climática, desigualdade econômica e violência de gênero, reforçando que respostas eficazes ao aquecimento global precisam levar em conta essas dimensões sociais, o que é considerado por negociadores e especialistas como um avanço na governança climática internacional ao consolidar o entendimento de que políticas climáticas eficazes dependem também da promoção da igualdade. 

Abordar o tema no Dia Internacional da Mulher também ajuda a dar visibilidade ao papel feminino na proteção do meio ambiente. Em muitas partes do mundo, elas estão à frente de iniciativas de conservação, agricultura sustentável, defesa de territórios e mobilização comunitária no combate à mudança do clima.

Acesse aqui o Plano de Ação de Gênero (documento em inglês)