SÉRIE ENVIADOS ESPECIAIS

“A transição energética precisa ser entendida como um bom negócio”, diz Elbia Gannoum, Enviada Especial de Energia

COP30 deve consolidar o entendimento de que investir em energia limpa é essencial para o desenvolvimento econômico sustentável

Enviada Especial com foco em Energia e presidente executiva da ABEEólica diz que  é preciso uma compreensão econômica para a transição energética justa. Créditos: Reprodução/Arquivo pessoal
Enviada Especial com foco em Energia e presidente executiva da ABEEólica diz que é preciso uma compreensão econômica para a transição energética justa. Créditos: Reprodução/Arquivo pessoal

Por Rafaela Ferreira/COP30

O processo de transformação da matriz energética mundial, com foco em fontes mais limpas e renováveis, mantendo o acesso universal e a preços acessíveis, está no centro das discussões da COP30. A chamada transição energética justa busca equilibrar sustentabilidade, inclusão social e desenvolvimento econômico. 

Neste episódio da série especial Enviados Especiais, Elbia Gannoum, Enviada com foco em Energia e presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), destaca que alcançar a transição energética justa exige uma mudança na forma como o mercado compreende e valoriza os investimentos em energia, incorporando a transição como parte de um novo modelo econômico global. 

A transição energética global representa um desafio no sentido de propiciar desenvolvimento econômico e social a partir de menores emissões de carbono e com maior participação das fontes limpas e renováveis. Para Elbia, um dos grandes desafios para que o mundo avance nesse objetivo é o entendimento comum da economia dentro desse novo modelo. “Se nós não mudarmos o nosso modelo de pensar, focado simplesmente na taxa de retorno, se a relação entre investimento e retorno de curto prazo não incorporar, na equação de custos, os dramas e prejuízos climáticos que comprometem nossa rentabilidade, pensando do ponto de vista do investidor, nós não vamos sair dessa armadilha”. 

“Eu falo com muita frequência: a transição energética precisa ser entendida como um negócio, como um business, e como um bom negócio. Ainda está faltando ao mundo, e a muitos investidores, essa compreensão de que pode ser um negócio e de que pode ser um bom negócio. Então, a gente precisa virar essa chave, essa compreensão econômica. É, de fato, uma mudança de modelo econômico”, afirma a presidente executiva da ABEEólica.

Elbia também explica que o conceito de transição energética, globalmente falando, é sobre mudar um modelo econômico da sociedade. “A partir de Paris, muito se falou sobre as grandes diferenças entre os países, as diferenças econômicas, políticas, sociais, geográficas e de recursos disponíveis para realizar essa transição. E que, ao transitar de um modo de produção para outro, não se pode abrir mão do desenvolvimento econômico e social.” 

“O conceito de ‘justo’ é não deixar ninguém para trás. Não se deve fazer essa transição em detrimento da sociedade, dos empregos ou do modo de vida da população. Então, é preciso transitar, e essa transição deve ocorrer levando junto e desenvolvendo a economia e a sociedade”, completa a Enviada Especial.

Brasil matriz energética limpa

Hoje, o Brasil é um dos países com as matrizes mais limpas do mundo. Dados do Balanço Energético Nacional (BEN) de 2025, publicado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), mostram que a energia eólica e solar representam 23,7% de participação na geração total de eletricidade do país, em 2024. É quase um quarto da nossa energia vinda direto da natureza, limpa, renovável e cada vez mais presente na vida dos brasileiros. 

Segundo o Balanço, a expansão da geração eólica, +12,4%, solar, +39,6%, e do gás natural, +23,9%, causou a queda de -1,0% de participação da fonte hidráulica na matriz elétrica brasileira. Ao todo, a oferta interna de energia elétrica atingiu a marca de 762,9 terawatt-hora (TWh) no ano, um aumento de 5,5% em relação a 2023.

Para Elbia, o Brasil ocupa uma posição privilegiada para impulsionar a transição energética justa. “O que precisamos fazer é tornar isso mais visível para o mundo, mostrar que já estamos em processo de transição e de que forma podemos contribuir com a economia global nesse movimento”, afirma.

Em relação à COP30, ela ressalta a importância de evidenciar o potencial do país e o uso estratégico dos recursos disponíveis. “A gente sabe que a COP não discute o Brasil, mas o mundo diante do desafio da transição energética. E esse desafio é enorme, tanto pela dificuldade de ampliar o uso de fontes renováveis quanto de desenvolver novos modelos produtivos. Isso já é um fato. Mas, na minha percepção, o maior entrave hoje é a falta de vontade efetiva de realizar essa transição”, avalia.

COP30 da implementação

Elbia Gannoum lembra que há um consenso de que a COP30 deve ser a conferência da implementação, um momento de transformar em resultados concretos os debates e compromissos firmados em edições anteriores. “A COP30 é a COP da implementação. É o momento de colocar em prática tudo aquilo que já foi discutido e acordado nos últimos anos. Temos a compreensão de que os grandes acordos já foram firmados e, em certa medida, estarão consolidados. Portanto, a COP30 não será um espaço para novos acordos, mas sim uma conferência dedicada a definir a trajetória de implementação das decisões já tomadas”, afirma.

Sobre sua atuação como Enviada Especial, a presidente executiva da ABEEólica explica que seu principal papel é criar conexões entre a sociedade, o setor produtivo e o governo, aproximando quem produz conhecimento e quem toma decisões. “Nesse momento da COP, não apenas por ela acontecer no Brasil, mas por representar um avanço nas discussões globais, é fundamental ampliar a permeabilidade entre o poder de decisão e a própria sociedade. Nosso papel como enviados é justamente esse: levar e trazer informações, ideias e propostas que ajudem a construir soluções conjuntas”, diz.