‘O grande mote não é se devemos investir em adaptação, e sim como’
Para a diretora de Programa da COP30, Alice Amorim, a atração de mais investimentos em adaptação passa por definir como fazê-lo e quais são as prioridades.

A Semana de Ação Climática de Londres, uma das mais movimentadas do ano, tem a tradição de voltar-se às discussões econômicas e financeiras em torno das mudanças climáticas. Não foi diferente no caso da agenda de adaptação, que, sob a Presidência da COP30, ganhou destaque na Agenda Global de Ação Climática e contou com a construção de uma aliança multissetorial voltada à implementação de planos nacionais.
A diretora de Programas da COP30, Alice Amorim, conta que diversas discussões realizadas na capital britânica trouxeram o tema ao centro da mesa. A onda de calor que atingiu a cidade durante a semana foi um ingrediente com sabor de urgência. “Não podemos esperar dez anos para implementar os Planos Nacionais de Adaptação.”
A Semana de Ação Climática de Londres é marcada pela forte presença do setor privado. Como a agenda de adaptação dialoga com o mundo dos negócios?
Alice Amorim: Destaco um ponto: como tornar a resiliência atrativa para investidores.
O grande mote da agenda da Climate Week de Londres não é se devemos investir em adaptação, mas sim como. É uma discussão muito focada em instrumentos financeiros: quais são os mais adequados para investir em adaptação e resiliência em diferentes temas e setores, como a agricultura.
Há muitas perguntas sobre os NAPs (Planos Nacionais de Adaptação, em português), sobre como torná-los mais atraentes para investimentos e sobre como a gente casa os sistemas financeiros com as agendas de adaptação. Por exemplo, como as taxonomias financeiras, e há várias no mundo, incluindo a Taxonomia Sustentável Brasileira, ajudam a atrair mais recursos para adaptação.
Como aproximar os Planos Nacionais de Adaptação desses recursos?
Alice Amorim: A resposta passa sobre como fazer os NAPs se tornarem rapidamente compreensíveis para o mundo das finanças, diferentemente do que ocorreu com as NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas). Foram quase dez anos para que o setor financeiro entendesse o que as NDCs significam em termos de oportunidades de investimento.
Não podemos esperar dez anos para implementar os Planos Nacionais de Adaptação. Há um desafio de linguagem, de clareza nas ações e de quantificar o custo de implementação, em que os países em desenvolvimento precisam trabalhar.
Ao mesmo tempo, há o desejo de fortalecer o sistema da Convenção-Quadro da ONU sobre a Mudança do Clima. Precisamos reforçar as ferramentas — basicamente as NDCs, os NAPs e os Relatórios de Transparência Bianuais — e melhorar sua usabilidade.
Quais são as atuais barreiras para o investimento privado em adaptação?
Alice Amorim: Investidores privados buscam oportunidades claras, modelos de receita críveis e uma estrutura de investimento transparente. Os NAPs são estratégias nacionais de resiliência e desenvolvimento. Dialogar com investidores desde o início da formulação dos planos ajuda a aproximar o que é prioritário, na visão do setor público, das oportunidades que eles buscam e dos elementos que precisam.
No Climate Resilience Finance Forum, que aconteceu durante a semana, foram abordados vários outros temas, como seguros e infraestrutura de dados, e apresentados casos concretos de instrumentos financeiros para adaptação.
O caso do Ecoinvest, do Brasil, é um exemplo de como mobilizar capital privado. A Colômbia tem o Fiagro, com foco em investimento para pequenos produtores rurais. E instituições financeiras como Standard Chartered Bank, o Climate Investment Fund e o Banco Interamericano de Desenvolvimento trouxeram perspectivas bem práticas sobre como financiam projetos de adaptação.
Qual outro tema da agenda de adaptação foi tratado em Londres?
Alice Amorim: Houve muitos debates sobre resiliência e adaptação no primeiro dia do Climate Innovation Forum e em espaços paralelos. Os temas mais recorrentes foram água, agricultura e segurança alimentar.
A saúde apareceu em vários espaços. Neste campo, foi mencionado com frequência o Plano de Ação em Saúde de Belém — nossa agenda de ação — como um instrumento importante para mostrar o que precisa ser feito. Novamente, a pergunta não é se devemos falar e investir em adaptação, e sim quais são as prioridades e como fazê-lo.
Como falou o secretário-geral da ONU aqui em Londres, os impactos das mudanças climáticas têm mudado o que se entende sobre desenvolvimento, estabilidade e segurança. A adaptação salva vidas.
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